
Ricardo Sastre,
São Paulo, 26 de abril de 2026.

A nova legislação sobre chocolate no Brasil, aprovada pela Câmara, pelo Senado e aguarda sanção presidencial, eleva o seu padrão de qualidade ao exigir o mínimo de 35% de sólidos de cacau para produtos "intensos" e 25% para chocolate ao leite. O objetivo é aumentar o teor de cacau, reduzir gorduras vegetais e extinguir as denominações "meio amargo" para produtos com baixo cacau, exigindo rótulos mais claros.
Atualmente, para um produto ser chamado de chocolate no Brasil, basta ter 25% de sólidos totais de cacau, inferior aos padrões internacionais. Na União Europeia, por exemplo, o mínimo exigido é de 35% para chocolate em geral e 30% para a versão ao leite. Os chocolates mais baratos na Europa são melhores do que os nossos e as marcas que dominam as gôndolas brasileiras oferecem produtos melhores fora do Brasil. Experimente comprar um chocolate da mesma marca em um freeshop, a diferença é perceptível.
A competitividade está tão acirrada nas gôndolas que as marcas de chocolate, além de reduzir drasticamente o tamanho das porções do produto e aumentar as embalagens, (sobra muito espaço vazio), resolveram reformular o produto, substituindo ingredientes mais caros, por outros mais baratos e prejudiciais a saúde no médio a longo prazo.
O mais engraçado neste contexto em específico é que o principal ingrediente, a referência do produto que é o cacau, foi deixado de lado. É como fazer um cachorro-quente sem salsicha ou um pastel sem recheio. Algumas pessoas eventualmente optam por isso, mas descaracteriza a receita original.
Uma marca famosa relançou um chocolate clássico dos anos 80 e assim que chegou no mercado eu fui comprá-lo. Não me considero um consumidor compulsivo por chocolate e tão pouco saudosista, mas este relançamento me chamou atenção porque era o que eu comia com meus primos na casa de minha querida avó.
Colecionávamos os cards coloridos que serviam como base para a fina barrinha de chocolate. ao chegar na gôndola me deparei com uma embalagem diferente, 10 gramas a menos de chocolate e o card de papel substituído por um Qrcode. A minha maior “surpresa” foi quando mordi o chocolate, ao invés de sentir o gosto da minha infância na casa da avó, me remeteu as sobras do churrasco de domingo, onde a gordura da costela fria fica evidente.
Novas marcas surgiram para oferecer chocolate de qualidade, esse movimento vem conquistando uma parcela significativa do mercado. Em uma adaptação de orçamento, a opção é reduzir a quantidade de consumo para ingerir um produto de melhor qualidade e com ingredientes naturais.
Quando as decisões de mudança são para beneficiar a saúde do ser humano e a conservação do planeta, tudo bem. O problema é que as grandes marcas que dominam a categoria de produto, não estão preocupadas com isso, e sim com a manutenção das suas margens de lucro. Pensar no bem-estar coletivo é sempre a última opção, o que importa é atuar nos limites da legislação vigente, caso contrário encontraríamos o mesmo gosto do chocolate da mesma marca em qualquer país do mundo em que ela estivesse.
Possivelmente essa nova lei brasileira, um pouco mais branda do que a europeia, seja aprovada em breve. Vamos prestar atenção na mudança do produto quanto ao tamanho, embalagem e preço. Acredito que haverá marcas que utilizarão esta nova regra como uma vantagem competitiva: Nossos chocolates são produzidos com 35% de cacau, ou, nossos chocolates são feitos de cacau.
