
Ricardo Sastre,
São Paulo, 21 de janeiro de 2026.

Se por um lado essas facilidades aceleraram bastante o cumprimento das nossas tarefas, por outro ângulo houve diversos efeitos colaterais, como ansiedade, uso de óculos cada vez mais precoce, dores na coluna e mudanças de ânimos repentinas influenciadas por alguma mensagem indesejada ou uma postagem em rede social. Quem sabe a próxima mutação do corpo humano será a alteração no formato dos dedos, ou um chip implantado na pele. Opa, isso já existe!
Se o uso dessas facilidades não acompanhar uma estratégia e um autoconhecimento quanto aos seus benefícios, principalmente em saber dosar a quantidade de uso diário, provavelmente iremos retroceder ou ficar no mesmo lugar. Um bom exercício é perceber historicamente a entrada de novas tecnologias.
Na década de 50 uma pessoa fazia curso de datilografia e ganhava um salário compatível com a função administrativa.
Na década de 70 a mesma pessoa usava uma máquina de escrever elétrica, aumentando a sua produtividade, mas o salário permanecendo o mesmo.
Nos anos 2000, vieram os computadores escalando rapidamente o nível de produtividade na área administrativa, mas a remuneração permanecia no mesmo patamar.
Atualmente, com o uso da inteligência artificial e dos aplicativos de troca de informações, a produtividade e a sobreposição de tarefas atingiram uma velocidade maior do que a cognição humana. Adivinhem qual foi o aumento de salário? Além do salário podemos medir o nível de satisfação e estresse das pessoas.
Interessante que a cada nova onda de mudanças significativas na sociedade em detrimento a entrada de novas tecnologias, sempre houve e haverá resistência em sua implantação e a velocidade da mudança varia de acordo com o grau de instrução e o poder aquisitivo. Quanto menor o acesso, mais tempo levará.
Recentemente passei por uma experiência que me deixou reflexivo sobre o nível de dependência que estamos do aparelho celular. Fiz uma viagem aérea a trabalho para visitar um cliente. No dia seguinte precisei me deslocar para uma outra cidade e a opção escolhida foi chamar um veículo em um aplicativo de transporte de passageiros.
Ao ingressar no carro, olhei meu celular para verificar se choveria e qual seria o tempo de deslocamento. A viagem levaria aproximadamente 40 minutos. Enquanto aguardava a chegada ao destino, obviamente não observei para fora do vidro pois havia muitas mensagens para responder, elas não param de chegar.
Para minha surpresa, subitamente o telefone ficou com a tela cinza e não havia jeito de fazê-lo voltar ao normal. Depois de apertar todos os botões, tentar desligar, deslizar os dedos na tela com força, tirar o chip e procurar onde ficava a bateria do aparelho, percebi que não havia nada a ser feito.
O tempo foi passando, mas perdi a noção pois o GPS e o relógio estavam no celular. Acostumado em resolver problemas complexos pois a minha profissão exige esta habilidade, comecei a gerar alternativas para solucionar o problema de chegar com o telefone apagado ao meu destino.
Antes de buscar alternativas, fui entender quais seriam os recursos necessários para retornar a minha casa. O primeiro desafio estava a poucos minutos, combinei de avisar meu cliente quando chegasse ao ponto de encontro. Uma solução era pedir um telefone emprestado e ligar. Me dei conta que o número do telefone não é mais relevante em nossas agendas, perdemos o hábito de decorar. Lembrei o número do telefone fixo da casa da minha avó quando eu era pequeno, mas nenhum outro contato veio a minha cabeça.
Caso desse desencontro, como iria retornar para casa? Me dei conta que precisaria do celular para chamar o transporte, acessar a conta bancária, que em meu caso também é digital, entrar no apartamento pois a fechadura abria por senha que estava armazenada no celular e fazer o check-in do voo de volta no outro dia.
Diante do transtorno, não pensei em pedir comida, ouvir música, acessar as redes sociais, agenda, carteira de motorista e identidade, saber quantos passos percorri, ver meus batimentos cardíacos e muito menos fazer compras ou consultar sites de busca. Todas essa e muitas outras tarefas são executadas através do aparelho celular.
Ao desembarcar, o motorista, solidário ao meu problema, desejou boa sorte e eu fiquei no local de encontro pensando rapidamente em uma alternativa para solucionar o problema.
Coloquei o telefone em meu bolso por alguns minutos e quando o peguei novamente, percebi que estava reiniciando e em seguida voltou ao normal e todas as suas funções haviam normalizado. Passado o susto, comparei com a sensação de perder ou ter o celular furtado. Imediatamente prometi redobrar meus cuidados.
Fiz minha reunião e comentei rapidamente ao cliente e deu tudo certo. Ao retornar para o apartamento em que eu estava na outra cidade, fiquei refletindo sobre o que aconteceu. Durante a viagem veio um misto entre retomar alguns hábitos analógicos como ter dinheiro na carteira e memorizar alguns números de telefone ou anotar em um papel e levar comigo, e ao mesmo tempo pesquisar sobre o que pode ter ocorrido em meu telefone e cuidar melhor do aparelho - órgão vital do corpo humano contemporâneo.
O que ficou como reflexão é a constatação sobre o quanto estamos dependentes das novas tecnologias. Mesmo se o telefone não tivesse funcionado novamente, tive a certeza de que retornaria para casa de alguma forma. Uma das maiores virtudes do ser humano em minha opinião é a capacidade de se adaptar às diversidades da vida. Torna-se importante saber que a vida tem altos e baixos e o que reduz o sofrimento é forma que encaramos os momentos de crise.
Esta reflexão não tem o objetivo de criar um grupo de resistência à inovação, tão pouco morrer abraçado em telefones fixos ou em discos de vinil, mesmo que proporcionem uma relação mais intensa entre o homem e o artefato. Aqui o importante é refletir sobre nossa realidade e buscar olhar de dentro para fora, no sentido de permitir este tempo para observar ao redor e olhar de fora para dentro, em busca de autoconhecimento para entender qual é o nosso papel diante de tudo isso.
