

Ricardo Sastre
São Paulo, 24 de setembro de 2026
Habitamos em um espaço entre o foda e o fodido

Imagem gerada por IA
Comparar é um hábito e um parâmetro que se adota para quase tudo. Compara-se objetos, ideias ou dados. Primeiro se identifica critérios em comum, como preço, tamanho, utilidade ou qualidade para se analisar os pontos convergentes e divergentes. São Paulo é mais perto do Rio de Janeiro do que de Porto Alegre. Uma melancia é maior do que um melão, uma empresa tem menos clientes do que a outra, e assim por diante.
A palavra comparar vem do verbo em latim comparare, que significa "colocar lado a lado para ver semelhanças e diferenças". Se define um objetivo, critérios, coleta os dados e analisa os prós e os contras para desenhar cenários ou definir qual caminho seguir. Comparar pode ser uma forma de medir como nos posicionamos ou uma referência de onde estamos e para onde vamos.
O problema é quando se compara seres humanos!
Neste universo competitivo, vivemos de metas, indicadores de desempenho e projeções para um futuro que não temos certeza se existirá, tudo é impermanente! Comparar motiva e direciona, mas pode virar uma fonte de sofrimento. A grama do vizinho é sempre mais verde do que a nossa.
Uma forma de reduzir essa angústia é comparar algo ou alguém por ele mesmo. A árvore que plantei no mês passado cresceu 10 cm, a empresa conquistou no último ano um crescimento de 10% ou medir a si próprio. No último ano consegui avançar em meu planejamento pessoal. Nestes casos, o tempo é um espaço comparativo, e não o vizinho ou concorrente.
O ser humano é inquieto, está sempre em busca de respostas neste universo de múltiplas suposições. Iremos morrer, mas para onde vamos ou se iremos, talvez em algum momento saberemos, não temos certeza. A filosofia tenta explicar o inexplicável, pode ser para confortar ou confundir ainda mais. Quanto mais aprendemos, maior se torna o universo de incertezas. Ignorar os mistérios da vida pode ser uma saída mais confortável, porém, sua omissão aumentará a chance de dar uma espiada naquela grama mais verde.
Existe um espaço imaginário entre os cenários otimista e pessimista, uma vacuidade que não tem limite, nem início ou fim. É um intervalo sem horizontes atingíveis, mas projetável, movido pelo desejo de não querer estar na extremidade negativa.
O foda é uma gíria popular, agressiva, chula, mas utilizada no dia a dia para representar um cenário muito positivo, acima das expectativas, algo que o dicionário não conseguiu extrapolar. Seja foda! A capa do livro no aeroporto gritou.
No mundo dos negócios, ser foda é se destacar no mercado com ações que merecem ser reconhecidas pelos outros e por si mesmo.
O fodido é uma condição que ninguém quer estar, Oscar Niemeyer inaugurou abertamente essa expressão quando imortalizou a frase “fodido não tem vez”, quando se referiu a desigualdade social e a falta de oportunidades para as classes marginalizadas no Brasil. Ao projetar um prédio público imponente, Niemeyer sabia que os mais pobres não iriam usufrui-lo, mas eles poderiam parar em frente, ter um momento de contemplação, mesmo não entendendo o que significa.
Ambas as palavras possuem em sua origem uma conotação sexual. Sem fazer juízo de valor, deslocá-las de contexto provoca um impacto muito grande, por isso aparecem em nosso cotidiano, é como desrespeitar a mãe. É uma motivação libertadora, falar palavrão transcende barreiras e gasta o estoque acumulado contido nas fases iniciais da nossa vida, onde nossos pais proibiram, mas falavam escondido. A 5a série é um portal para a liberdade, tão significativo que algumas pessoas ainda vivem nela. Hoje somos os adultos, podemos nos expressar abertamente, respeitando o contexto, obviamente. Talvez o título deste artigo choque, mas esse é o objetivo.
A dualidade está presente o tempo todo em nossa vida. Quente e frio, dia e noite, bom e mau, força e fraqueza, coragem e medo, vitória e derrota. O desafio é lidar com isso, acolher os momentos difíceis e enfrentá-los traz sabedoria e experiência para os próximos obstáculos. Entender nossos defeitos e qualidades expande nosso próprio entendimento, este contraste valoriza o todo.
Lamentar não irá adiantar, nossa mãe nos ensinou com frases comparativas que reclamar da vida é feio.
- Come o que está na mesa, tem gente que não nem isso para se alimentar. - Não reclama, tem gente morando debaixo da ponte.
- O dia que tiveres a tua casa você arruma melhor do que eu.
Quais são os valores importantes na vida? essa é a pergunta a se fazer. Nem tudo é dinheiro. Outro fator é entender a hora de começar a parar. Onde estou e para onde vou, quando chegar, estarei satisfeito? Raul Seixas trouxe esta reflexão na música Ouro de tolo, de 1973.
“Porque foi tão fácil conseguir
e agora eu me pergunto: E daí?
Eu tenho uma porção
de coisas grandes para conquistar e eu não posso ficar aí parado”.
Mais intuição e menos razão, é importante permitir abrir esse canal e deixar nossa sabedoria intrínseca fazer a sua parte. Neste espaço flutuante entre os cenários, é importante entender onde nos posicionamos e, se tiver que comparar, o que é inevitável, olhe para si mesmo.
