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Ricardo Sastre
Porto Alegre, 13 de abril de 2026. 

Quando a correria vira hábito
 

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Imagem gerada por IA

Falar sobre o tempo é um tema sempre relevante e que já foi abordado de diversas formas ao longo da existência humana no formato que conhecemos. Na mitologia Grega, são 3 os Deuses que o representam: Cronos, o tempo linear e cronológico que devora tudo. Kairós, é o tempo exato, o qualitativo e Aion, os tempos cíclicos do universo. No Egito, Heh, é o Deus que representa a eternidade e na filosofia Hindu, Indra representa os ciclos. No Budismo, a figura assustadora de Yama ou o Senhor da morte que segura a roda da vida, representa a impermanência. 

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Na filosofia, Santo Agostinho escreve sobre o tempo como subjetividade (tempo psicológico); Heráclito sobre o fluxo constante da vida com a frase famosa “não se pode entrar duas vezes no mesmo rio”. Aristóteles mede o movimento segundo o antes e o depois, ou seja, a quantificação e a intensidade da mudança. Sêneca tem um livro famoso chamado “Sobre a brevidade da vida” em que apresenta ensaios sobre a natureza do tempo. Para Kant, o tempo é uma forma de intuição medida pela mente humana. Para fechar, Heidegger, um filósofo contemporâneo, o tempo é a instância sobre a qual compreendemos as coisas e a nós mesmos. 

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Em síntese, podemos medir e sentir o tempo, enquanto vivemos o ciclo de uma vida. O tempo é tão subjetivo que existe uma ilha na Noruega chamada Sommarøy que ficou conhecida como o lugar onde o tempo não existe. Devido a sua localização geográfica, durante o ano a ilha vive em torno de 69 dias de sol e 70 dias de escuridão total. A vida é guiada pelos movimentos da natureza. Em 2019 os moradores criaram o movimento simbólico para abolir o relógio. 

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Avançando um pouco, a revolução industrial transformou radicalmente a concepção do tempo, substituindo o ritmo natural pelo relógio (Cronos), com suas jornadas de trabalho. A partir dessa mudança no mundo, inicialmente o tempo foi dividido em 3 momentos: durante 24 horas (ciclo de 1 dia), 8 horas são dedicadas ao trabalho para manter a “dignidade” e a subsistência humana; 8 horas para lazer e 8 horas para descanso.

 

A partir do momento que as indústrias e as tecnologias foram avançando e difundidas, as fábricas começaram a gerar excedentes de produção. O que antes era produzido por artesãos e no campo, conforme as necessidades básicas humanas, agora a produção é feita em escala. Este excesso de produção gerou estoques e a partir de 1930, surgiu a fase da persuasão onde o foco era empurrar produtos ao mercado, mesmo sem necessidades aparentes. A partir de 1950 houve uma transição para a era do marketing, onde o foco passou a ser em primeira instância, na fidelização e no atendimento das necessidades dos clientes. Na prática, a criação de novas necessidades, o que não era importante passou a ser prioridade, o ser humano virou consumista e acumulador. 

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O planeta sofreu com essa mudança na sociedade, a partir desses movimentos mais disruptivos surgiu o pensamento linear de extração, consumo e descarte. Neste meio tempo, o fluxo constante da vida se manteve, mas com a alteração do tempo percebido (Kairós) e uma ameaça latente na redução do ciclo da vida da terra. 

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As mudanças na sociedade continuaram ocorrendo ao longo do tempo, a população mundial cresceu, as indústrias se modernizaram passando por diversos ciclos na revolução industrial: do carvão para a eletricidade; da computação para a inteligência artificial. Por um lado, esta evolução possibilitou e facilitou a vida na terra, por outro lado, criou um efeito colateral de destruição do planeta e na aceleração do tempo qualitativo (intuitivo) das pessoas.

Ainda vivemos a era do marketing, mas agora com todo o aparato tecnológico a disposição das marcas. Saímos do trabalho manual para a digitalização em menos de 200 anos (cronos). 

A sobreposição de tarefas tornou-se necessária para darmos conta das demandas diárias, mesmo assim, acabamos desobedecendo aquela divisão mencionada anteriormente sobre a divisão do dia em 3 partes. Agora temos uma jornada de trabalho maior, se somarmos tudo o que envolve estar trabalhando, o lazer se resumiu a uma rotina de dividir o tempo para realizar exercícios (manter o corpo em forma para produzir mais) e estar com as famílias. Dormir 8 horas por dia virou privilégio para poucos.  

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Ouvir música sempre foi um ritual, era o momento de prestar atenção e sentir os seus efeitos no corpo e na alma. A música ao vivo foi dividindo espaços com as rádios e ao acesso a qualquer momento pelos consumidores. O movimento foi o mesmo, do artesanal (tocar um instrumento), da produção em massa (discos de vinil, fitas cassete, Cds) e atualmente nas plataformas digitais. O acesso instantâneo ocupou o espaço das sensações cinestésicas. Ouvir música virou uma tarefa sobreposta e secundária na rotina diária, seja no escritório, em casa, no carro ou até mesmo em lojas para atrair clientes. 

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A partir do esgotamento das pessoas, derivado de tanta informação cruzada, alguns movimentos de tirar o pé dessa roda que gira rapidamente começam a surgir. Sair e olhar de fora para repensar sobre o rumo em que estamos tomando torna-se necessário a todos mas são poucos que percebem. Somos natureza, o universo é uma unidade e esta unidade reflete no ser humano. 

Notem a diferença entre andar de avião, de carro, moto, cavalo ou a pé. Passamos pelo mesmo local, mas percebemos de maneira completamente diferente. Quanto menor a velocidade, mais detalhes aparecem.

 

Na rotina do dia a dia a competitividade acelera o tempo subjetivo. Quantas vezes ouvimos alguém comentar que o dia deveria ter mais do que 24 horas. Algumas pessoas estão viciadas na endorfina que o corpo libera como um analgésico natural quando estamos em um pico de stress elevado nos ambientes de trabalho. Desaprendemos a trabalhar e viver. Corremos sem saber por que, e para onde iremos.  

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As demandas surgem sem uma justificativa clara e são executadas sem uma reflexão sobre a necessidade de urgência.  Esses motivos possuem alguma relevância para a sociedade? O quanto estamos trabalhando sem foco, perdendo tempo com tarefas desnecessárias? Durante o meu dia, quais foram as ações que realmente fizeram sentido? 

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É necessário parar e refletir sobre a vida, a natureza não saltos, segundo o filósofo Leibniz, nada ocorrerá de uma hora para a outra. Perceba se essa correria faz sentido ou é para compensar o tempo mal planejado. Diminuir a correria e a percepção da velocidade do tempo pode aumentar a nossa produtividade, desde que tenhamos clareza sobre as nossas ações. Observe sua respiração, sem ela não sobrevivemos. Quanto mais afastado das grandes metrópoles, mais lenta é a percepção da passagem do tempo, mas o tempo cronológico é o mesmo em todos os lugares.   

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Quando cumprimos nosso ciclo na terra (Aion), não levamos nada do que acumulamos de bens materiais. Partindo do ponto de que estamos nessa jornada para evoluir como espírito, as experiências e os aprendizados acumulados ao longo da vida é que farão diferença para a essência do universo (no sentido de unidade).

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